Aos 25 anos, formado em Direito, o jovem vive sua primeira experiência de trabalho presencial, reforçando o papel fundamental da inclusão e da autonomia no mercado de trabalho
Viver com deficiência visual significa enfrentar barreiras que vão além das limitações individuais. O desafio está em garantir a participação plena em uma sociedade que precisa avançar na inclusão, assegurando a todas as pessoas o acesso aos seus direitos e às mesmas oportunidades.
A inclusão efetiva depende de mudanças que vão além das adaptações individuais, ela exige espaços acessíveis, serviços adequados e atitudes que respeitem as diferenças. O Poder Judiciário do Acre tem buscado avançar, ampliando as ações de acessibilidade e inclusão no ambiente de trabalho.
A história de Bruno Mesquita Feliciano ajuda a dar rosto a essa realidade. Aos 25 anos, ele começou uma nova etapa da vida profissional, conquistando o estágio na 1ª Câmara Cível da Comarca de Cruzeiro do Sul, seu primeiro trabalho presencial e na área do Direito.
Formado no ano passado, Bruno já tem duas especializações, em Direito Penal e Processo Penal e em Direito Administrativo e Licitações. Atualmente, cursa uma pós-graduação em Direito Civil e Processo Civil. O estágio chega em um momento importante de sua formação, enquanto se prepara para os próximos passos da carreira, que pretende iniciar na advocacia e, futuramente, seguir para o Ministério Público.
A oportunidade surgiu quando um colega contou sobre o processo seletivo para estágio no TJAC. Bruno acessou o site do tribunal, fez a inscrição e foi aprovado. A chegada ao Judiciário representa o início de uma nova experiência profissional, e um novo capítulo de uma trajetória que começou ainda na infância.



Trajetória de desafios
Cego desde o nascimento, Bruno começou a estudar braille ainda criança. O aprendizado foi fundamental para conquistar autonomia nos estudos, inclusive, enfrentando a falta de preparo da escola que não estava totalmente pronta para recebê-lo. Ele também foi vítima de bullying no ambiente escolar.
Depois veio a faculdade, na qual ele cursou Direito que, aliás, nunca foi uma escolha cercada de dúvidas. Ele conta que desde os 9 anos sabia que queria seguir essa área. Com a graduação concluída, veio o desafio de entrar no mercado de trabalho.
Bruno buscou oportunidades na área do Direito, mas encontrou dificuldades para conseguir um trabalho presencial. Diante disso, passou a trabalhar como autônomo, em home office, com consultoria em licenciamento ambiental para empresas do Amazonas e do Pará. O trabalho envolvia processos de licenciamento para diferentes tipos de empreendimentos, além de estudos de impacto ambiental e planos de mitigação.
A experiência mostrou que era possível trabalhar com autonomia, mas também revelou uma barreira que ainda aparece quando a deficiência visual é conhecida. “Eu sinto que quando as pessoas descobrem, elas ficam preocupadas e não querem me contratar, acham que eu não sou competente, que não vou dar conta”, relata.
Em alguns trabalhos, os clientes sequer sabiam que Bruno era cego. Ele preferia não revelar para não duvidarem de sua capacidade. Apesar da frustração que sentia, conta que isso não foi motivo para desistir. Ele continuou trabalhando, buscou alternativas e conseguiu se estabelecer profissionalmente.




Rompendo o preconceito
Agora estagiando no Judiciário, Bruno começa uma experiência diferente. Disse ter encontrado um ambiente acolhedor, inclusive, em seu primeiro dia de trabalho ele conheceu o presidente do TJAC, desembargador Laudivon Nogueira, que estava em agenda na cidade de Cruzeiro do Sul e fez questão de lhe dar boas-vindas.
O novo estagiário diz que quer aprender a rotina de uma unidade do Judiciário, aproveitar o estágio para conhecer de perto o funcionamento dos processos e compreender como são tomadas as decisões. “Eu quero ver como funcionam os trâmites processuais, entender o movimento, como os magistrados decidem e quais são os principais tipos de casos aqui na nossa região”, explica.
O conhecimento adquirido deverá acompanhar os próximos passos da carreira de Bruno que, casado há 10 meses com Antônia Lívia, 26, que também é uma pessoa com deficiência visual, está cheio de planos para o futuro. Ele fala que vai prestar o Exame da Ordem para atuar na advocacia, especialmente nas áreas de Direito Civil, Ambiental e Administrativo. E também vai investir no sonho de passar em um concurso público para o Ministério Público.
A história de Bruno mostra que inclusão não se resume à presença de uma pessoa com deficiência em determinado espaço. Ela passa pela existência de condições para que essa pessoa possa estudar, trabalhar, desenvolver suas habilidades e construir seus próprios caminhos.
Atualmente, o Tribunal de Justiça do Acre conta com 43 pessoas, entre servidores, colaboradores, estagiários e voluntários, com algum tipo de deficiência. A presença dessas pessoas mostra, na prática, que, com acessibilidade e condições adequadas, a deficiência não impede o exercício das atividades profissionais e permite que esses cidadãos tenham seus direitos à inclusão garantidos.

Fotos: Gleilson Miranda/Secom TJAC