Seu Flores: seringueiro, feirante e servidor da Justiça

Aos 73 anos de idade, Florisvaldo também conhecido como “Seu Flores” se aposenta com saúde e orgulho da trajetória profissional 

 

O Seu Flores, como é conhecido no Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), era lotado no setor de Protocolo, e, na última sexta-feira, dia 8, chegou para ele um momento que é esperado por muitos servidores públicos: o dia de se aposentar. A data foi marcada por homenagens de vários colegas em sua despedida.

Sempre muito alinhado, todos os dias ele se apresentava com calça social, camisa de botão, cabelo penteado para trás e seu crachá no peito. Pontual e prestativo, sua carreira no Poder Judiciário do Acre permitiu criar com dignidade cinco filhos.

Um homem de princípios e fé, casado há 45 anos (com a mesma mulher, enfatiza). Agora pretende voltar sua atenção à obra da sua casa e cuidar da sua mãe, que mora no mesmo terreno e hoje possui 93 anos de idade.

Contudo, por trás dos 35 anos no Protocolo está o senso de responsabilidade que foi forjado em casa, já que é o filho mais velho de 12 irmãos.

Nasceu no Seringal Palmares, que se situava nas proximidades de onde hoje é a Alcoolbrás. Ajudava seus pais no roçado e herdou a identidade seringueira. “Eu cortava seringa e a gente quebrava mil latas de castanha”, contabiliza parte do trabalho braçal.

Com o tempo e os filhos crescendo, passou a vender a produção da colônia na feira. Tinha uma banca no Mercado Velho. O atendimento à freguesia movia o sonho de ver seus filhos estudando e foi ali que conheceu o desembargador Minervino Farias, que foi presidente do TJAC de 1985 a 1987.

Logo, o cliente foi fidelizado pela gentileza do feirante. Um dia, enquanto levava a feira ao carro, recebeu o convite para trabalhar com a autoridade do Poder Judiciário. A surpresa foi bem recebida. Aos 38 anos de idade, teve seu primeiro registro na carteira de trabalho.

Sua trajetória se iniciou atendendo então ao que eram 15 seções, fazendo a logística dos processos e documentos. O que hoje é virtual, digital e sistematizado, antes era carimbado, anotado, datilografado e carregado de uma sala para outra, por isso sua história está intrinsecamente ligada à memória da instituição.

“Imagina a quantidade de papel que chegava dos Correios. Os malotes de ofícios enviados. As decisões que tramitavam pela nossa entrega! A gente levava pro Ministério Público, Defensoria e outra papelada pras secretarias. Era tanta coisa, que a gente chegava a gastar uma caneta por dia pra fazer as anotações de tudo no livro do Protocolo”, resume.

 

Carreira funcional

Na gestão da desembargadora Cezarinete Angelim, durante o biênio 2016-2017, recebeu uma placa de honra, reconhecendo o valor da sua dedicação diária. Os elogios são reforçados por Carlos Vasconcelos, atual responsável pelo Protocolo, que  confirma a excelente fama do colaborador.

“Falar dele é fácil, porque não temos essa relação de chefia, mas sim de amigos. São 12 anos. Ele faz o serviço sem nem ter que precisar pedir e nunca houve uma situação que o desabonasse”, resumiu em um dos poucos instantes que fala sério, já que o Carlos costuma fazer várias brincadeiras “arengando” com o seu Flores, marcando o companheirismo bem-humorado deles.

Antes dele, a Vânia França liderou o departamento por 15 anos. De igual modo, encontramos um testemunho de respeito e consideração: “quando eu cheguei no Protocolo, o seu Flores já estava lá e eu nem tinha conhecido meu marido, então ele assistiu várias fases da minha vida, me viu namorar, casar, ficar grávida e hoje meu filho tem 25 anos de idade. Ele foi pra mim um pai, um amigo, irmão e companheiro de muitas fases”, explica.

Sobretudo, é na lida diária que vemos esse homem traduzir com maestria muitos princípios da Administração: moralidade, integridade e eficiência. “É o meu jeito, eu me dou com todo mundo. Não faço cara feia pro serviço. Tudo que me pedem eu faço. Meu jeito todo é esse”, define em sua simplicidade.

 

 

Portaria de Elogio

Na manhã do dia 8 de outubro, a atual presidente do TJAC convidou o Florisvaldo Ferreira para entregar pessoalmente a Portaria de Elogio 1989/2021, que passa a integrar os assentos funcionais do servidor, antecedendo o documento final da aposentadoria.

A desembargadora Waldirene Cordeiro relembrou que eles possuem relacionamento profissional desde quando ela atuava no Ministério Público do Acre, onde ouviu pela primeira vez o “boooom dia”, que se tornaria o mais famoso do tribunal.

O papel registrou a conduta exemplar do agente de portaria, mas os sorrisos reconheceram o carinho unânime por ele. “Reunimos nesse momento singular para demonstrar gratidão pela sua empatia e honestidade. Que sua caminhada sirva de exemplo para muitos…” iniciou o discurso.

Porém, ele que é sempre entusiasmado e proativo, encontra na expressão dos seus sentimentos certa timidez. Tirou um lenço do bolso, secou rapidamente os olhos marejados pelo momento de homenagem que vivia frente aos amigos e do seu filho caçula. Agradeceu e deixou uma mensagem para todos nós: “vocês vão estar sempre no meu coração, eu vou sentir muita saudade”.

Miriane Teles | Comunicação TJAC