Um pisão no pé deu início à história de Ana e Alan; Francisco e Alzeni superaram anos de distância até oficializarem a união. A cerimônia foi realizada na manhã desta terça-feira, 29, na quadra da Escola Íris Célia Cabanellas Zannini
Há histórias que parecem acontecer apenas em filmes, principalmente nos mais românticos: alguém pisa no pé de um desconhecido e ele se torna o amor da sua vida. Parece coisa de Hollywood. Mas não. Foi exatamente isso que aconteceu com a jovem Ana Clara Manchineri, de 19 anos, moradora de Assis Brasil.
Ela conheceu o companheiro, Alan Cristian Saboya, de 22 anos, na festa de aniversário do avô dele, em uma colônia nas redondezas da cidade. O incidente, que poderia ter se transformado em um desentendimento ou em antipatia, virou pretexto para risadas, conversas e o surgimento de um sentimento: o amor. E, por sinal, um amor intenso. Com apenas três meses de relacionamento, decidiram morar juntos.

De lá para cá, passaram-se dois anos. O casal entendeu que era hora de dar um novo passo na história e oficializar a união. Entretanto, o orçamento apertado e as demais despesas adiavam esse plano. Foi então que, ao navegar pelas redes sociais, Ana viu uma publicação da prefeitura divulgando o casamento coletivo, serviço oferecido pelo Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) a pessoas que não dispõem de recursos para arcar com os custos do casório.
“Acho que foi a prefeitura que lançou que ia ter o Projeto Cidadão. Eu já mandei na hora pra ele e disse: ‘Bora casar?’. Ele falou: ‘É isso’. Aí foi quando a gente decidiu procurar a secretaria [onde ocorriam as inscrições], entregou os documentos certinhos e agora estamos aqui”, contou a noiva enquanto aguardava o início da cerimônia.
O casamento foi realizado na manhã desta terça-feira, 29, na Escola Íris Célia Cabanellas Zannini, e reuniu 44 casais que disseram “sim” ao amor. A cerimônia também marcou o encerramento do Projeto Cidadão no município. A ação social beneficiou milhares de moradoras e moradores com acesso gratuito a documentos e serviços públicos essenciais.

Amor sem roteiro
Francisco Chagas, de 55 anos, esbarrou com a companheira pelas redes sociais. Ele buscava novas amizades quando se deparou com o perfil de Alzeni Morais, de 45. De imediato, interessou-se por ela e enviou uma solicitação de amizade, aceita algumas horas depois. Durante um tempo, não houve qualquer interação. O papo só começou quando ele fez uma viagem a Rio Branco e decidiu que queria conhecê-la. Desde então, não pararam mais de conversar. A amizade virou relacionamento. Hoje, o casal está junto há mais de 10 anos, sete deles a distância.
Depois de longos períodos longe um do outro, Alzeni decidiu morar em Assis Brasil. Foi na cidade em que vivem e aproveitam a maior parte do tempo juntos que escolheram dizer o tão aguardado “sim”. “A gente vinha adiando há muito, muito tempo porque, como meu marido falou, é caro. Às vezes, a gente não tem condições de pagar. Muitos casais estão realizando um sonho”, contou, emocionada.

Já Ariadna Cunha, de 28 anos, descobriu que todo o ódio que acreditava sentir por Erick Fabrício, de 24, era, na verdade, amor. A noiva confessou que, quando foi apresentada a ele, o considerou imaturo, mas hoje reconhece que teve uma impressão equivocada. Segundo ela, o noivo é “muito atencioso, carinhoso”, além de prestativo. “Faz tudo que eu quero”, revelou.
Para o casal, o casamento coletivo representou o pontapé inicial da vida a dois, pois permitiu economizar para conquistar a casa própria.”Tipo que nem a gente, tava um pouco quebrado, foi muito importante essa iniciativa”, disse o noivo. “A gente até planejava casar, só que aí pensamos: ‘Pra que deixar pra outubro se a gente vai ter que pagar?’. Melhor casar agora que é de graça”, explicou Ariadna.

Cidadania como missão
Em seu discurso, o coordenador do Projeto Cidadão, desembargador Samoel Evangelista, convidou o poder público e a sociedade a apoiarem a iniciativa para que ela não seja vista como uma ação pontual, mas como uma missão permanente de garantia de direitos, especialmente o acesso à documentação, independentemente do local de residência ou da condição financeira da população.
“A cidadania precisa continuar chegando onde o povo está. A Justiça precisa continuar caminhando ao lado da população, e as instituições precisam permanecer unidas em favor daqueles que mais precisam. Que essa etapa em Assis Brasil renove em todos nós a certeza de que servir ao próximo é uma das formas mais nobres de cumprir o nosso dever público”, declarou o desembargador.

O prefeito de Assis Brasil, Jerry Correia, relembrou o papel do Projeto Cidadão na efetivação de direitos básicos da população do município ao longo dos últimos 30 anos. “Eu me recordo de quando os juízes e toda a equipe chegavam aqui ainda de barco, vindos de Brasiléia, para oferecer cidadania aos moradores desta região, que, à época, era de fato isolada. Sem o Poder Judiciário não conseguiríamos isso”, afirmou.
O celebrante do casamento, juiz Robson Shelton, discursou sobre a importância de uma união baseada em valores e na cultura da paz: “O casamento, como já foi dito, é um compromisso diário. As senhoras e os senhores devem escolher amar mesmo nos dias difíceis, celebrar as vitórias um do outro, aprender com as diferenças e nunca deixar que o diálogo, o respeito e a cumplicidade se percam ao longo do caminho. O verdadeiro amor não se mede apenas pelos grandes gestos, mas principalmente pelas pequenas atitudes de carinho, cuidado e dedicação que fortalecem a relação todos os dias”.

Votos, alianças e certidões
Concluídos os pronunciamentos das autoridades, o magistrado se dirigiu ao casal mais jovem e leu os votos. Em seguida, foi a vez do casal mais experiente e, por fim, dos demais noivos, que trocaram alianças e selaram o momento com um beijo. Depois de encerrada a cerimônia, todos receberam as certidões de casamento, confraternizaram e aproveitaram um espaço montado pela prefeitura.
A cerimônia teve ainda três momentos significativos: uma homenagem da coordenação do Projeto Cidadão ao município de Assis Brasil pelo apoio dado ao longo dos 30 anos da iniciativa; a entrega simbólica de duas sentenças, ambas proferidas durante esta edição do projeto; e a doação de uma cadeira de rodas pelo Rotary Club a uma moradora com dificuldade de locomoção.
Participaram do casamento coletivo a promotora de Justiça Renata Barbosa; a defensora pública Elizabeth Castelo; o procurador do Município, Daniel Freire; o delegatário substituto Alan Lima; e o gestor da Escola Íris Célia Cabanellas Zannini, professor Charles Martins, além de familiares e amigos dos casais.










Fotos: Secom TJAC